Eu sou Assistente Executiva. Não “trabalho como” – eu sou. Assistente Executiva é tipo jogador de futebol: dá pra treinar, claro, mas o talento mesmo já vem de fábrica. E eu vim com esse chip instalado.
Eu amo o que faço. Organizo agendas, viagens, casas, vidas, finanças e crises existenciais alheias com a mesma eficiência. Planejo curto, médio e longo prazo, não entro em pânico quando algo sai do script e resolvo problemas de um jeito que só uma mente neurodivergente, organizada e levemente obsessiva conseguiria. Modéstia? Não hoje. Eu sei que sou boa.
Também sou boa com tecnologia. Aquariana, curiosa, early adopter assumida. Uso ferramentas digitais, IA, Grammarly, ChatGPT, Copilot , tudo o que aumenta produtividade e facilita a vida, especialmente trabalhando em uma segunda língua. Seria hipocrisia fingir que a tecnologia não mudou minha carreira. Mudou. E muito.
Mas (sempre tem um “mas”), junto com a eficiência veio a inquietação. A velocidade da inteligência artificial, a automação do trabalho, a substituição silenciosa de pessoas por máquinas… tudo isso me preocupa mais do que me empolga. Vi recentemente um podcast com um dos criadores da IA, agora avô, falando sobre o futuro do neto. Aquilo ficou comigo.
Enquanto a IA for ferramenta, ótimo. O problema é quando ela vira substituição. Porque a ganância, velha conhecida do capitalismo- não costuma frear por empatia.
Então me perguntei: o que eu, como pessoa física, posso fazer para desacelerar o uso da inteligência artificial no dia a dia? Não achei uma resposta genial. Achei pequenas escolhas. Pedi comida com um atendente em vez de um QR code. Paguei com gente, não com máquina. Escolhi o caixa humano em vez do self-service.
É pouco? É. Um grão de areia. Mas sempre que eu puder escolher entre uma máquina e um ser humano, eu escolho gente. Inteligência humana, calor humano, olhar humano.
Porque se tudo continuar nessa pressa absurda por eficiência, a gente não vai perder só empregos. Vai perder presença, conquista, superação e, no fim das contas, vai deixar de ser gente.
E gente que é gente, nunca perde a majestade.
Ou não deveria, não para uma maquina que a gente mesmo criou.

