Crônica, Karine Keogh, Tá na Mídia, Vida Na Irlanda

Não são todos os homens, Mas são muitos homens.

 

Eu não sei se essa noticia chegou até você, que mora no Brasil, mas essa semana, na semana do dia internacional da mulher, mais uma mulher foi assasinada em Kent – UK , Sarah Everard, 33 anos, voltava para casa andando quando foi sequestrada e morta por um policial, com o qual segundo as investigações, ela não tinha nenhuma relação, só  estava na hora errada, no lugar errado e era mulher.

A violência contra a mulher é uma pandemia mundial, a gente que é  brasileira bem sabe todas as agressões que sofremos pelo simples fato de sermos do sexo feminino, e isso infelizmente não é só comum no Brasil.

A 2 anos atrás, estava hospedada em um hotel e resolvi fazer massagem.

O massagista era um homem, mas até então não me preocupei.

Ele começou a massagem pelas costas e depois de um tempo pediu para eu virar, achei que ele fosse colocar a toalha sobre o meu busto, mas não , ele começou a massagear com oleo os meus peitos.

Veja bem, massagear os meus peitos com muito óleo e não, aquilo não era uma massagem normal e não, eu não estou exagerando – aquilo deve ter durado uns 10 minutos.

Eu fiquei em choque. Não consegui esboçar nenhuma reação. E pra eu não conseguir esboçar uma reação é porque o choque foi grande.

Me mantive de olhos fechados contando os segundos para que aquilo acabasse.

Me culpei, talvez tivesse escolhido a massagem errada já que eu não falava a mesma lingua que ele, talvez eu tivesse sido muito simpática e ele tivesse interpretado como se eu estivesse interessada.

Talvez aquilo nem tenha sido de maldade e que tenha sido coisa da minha cabeca.

Pensei em denunciar para a gerência do hotel, mas e se aquele fosse o tipo de massagem normal? – E se ele perdesse o emprego?

Eu fiz exatamente o que muitas, a maioria de nós  fazemos em situações em que somos vítimas , eu me calei, me culpei e não fiz absolutamente nada, alem de compartilhar com outras amigas que estavam tambem hospedadas no hotel.

Isso precisou acontecer comigo para que eu pudesse entender claramente que essa reação de paralisia e impotencia é o comportamento que está enraizado em nos mulheres. Eu estava ali, praticamente pelada na frente de um estranho, em um país no qual nem a lingua falava, com um homem vestido, tantas coisas poderiam ter acontecido se eu tivesse reagido naquela situação e se aproveitando da minha vulnerabilidade ele se sentiu a vontade para cometer aquele abuso. – seria a minha palavra contra a dele? – seria exagero meu?- sera mesmo que foi abuso?

O que eu sei é  que em todos os lugares em que já  fiz massagem eu nunca me senti abusada, desconfortável e violada. Ninguém, nem homem e nem mulher, nunca me tocaram daquele jeito, eu sei que aquela não foi uma massagem normal, então o que me impediu de denunciar?

Verdade seja dita? – Eu não sei.

Eu não sei porque não saí direto daquela sala e fui direto a gerência ou a polícia.

Talvez eu tenha agido dessa forma porque o ato que ele praticou não foi consumado, não houve penetração, marcas físicas ou provas. Me imaginei tendo que responder perguntas do tipo: ‘Mas você não teve problemas em fazer massagem com um homem?’ – ou ter que escutar indiretas de que talvez eu fosse a culpada.

Mas o que me incomoda mais no meu silêncio é  que ele encoraja o abusador a continuar praticando esse tipo de ato, e o que hoje é massagem de 10 minutos de oleo no peito, aamanhã pode ser um estupro consumado e meu silêncio coloca outra mulher em risco.

Essa situação aconteceu a um tempo, mas sempre que um caso de violência contra mulher vem a tona ele me incomoda.

Ser mulher nos consome energia.

Ser mulher nos obrigada a ensinar nossas filhas a se comportarem de um jeito ou de outro por causa dos homens que não se comportam, ser mulher é  ser vitima diária de violências silenciosas, abusos psicologicos, e culpas inexplicáveis pelo comportamento alheio.

 

Todas as mulheres que voce conhece ja optaram pelo caminho mais longo.

Andaram olhando para trás.

Se escondeu atras de uma vitrine de loja.

Andou com as chaves na mão e entre os dedos.

Fez uma ligação falsa, virou a esquina e acelerou o passo.

Todas as mulheres que você conhece já voltaram andando para casa com medo.

Todas as mulheres. Sem exceção. 

 

E não, não são todos os homens que representam risco para gente, mas eles sao MUITOS e a gente nunca sabe quem eles são, e não saber quem eles são é o que tira o nosso sono.

Que dia triste, que semana triste, que mundo triste é esse onde a gente perdeu o direito de ir pra casa.

 

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