Crônica, Cultura

A Espada‑de‑São‑Jorge e o Ano Que Me Escolheu

Karine Keogh-Cronica
Karine Keogh- Espada de Sao jorge

Eu tive um ano bom. Não um ano perfeito, mas bom, desses cheios de pequenos exageros, de risadas altas e de coincidências que a gente escolhe acreditar que foram destino.

Fiz as coisas que mais gosto, com as pessoas que mais gosto, nos lugares que mais gosto e, honestamente, isso já é quase luxo em tempos tão esquisitos.

Comecei em Amsterdã, congelando os dedos mas aquecendo a alma com minhas filhas.

Fui ao Rio para o Carnaval, onde a gente sempre lembra que o corpo tem memória de festa.

Voltei a Amsterdã  dessa vez para ver a Mia ganhar um torneio de futebol (sim, o time ganhou; sim, vou repetir isso até 2028).

Depois, mergulhei num verão português com a família, e ainda sobrou espaço no passaporte para Budapeste e Paris, porque 2025 decidiu ser generoso comigo.

Descobri um novo amor: o padel. Amor verdadeiro, amor eterno, amor caro.

Gastei mais do que gostaria, mas fui mais feliz do que imaginei e no fim das contas, a matemática emocional fechou no azul.

Breno, aquele menino que me deu o titulo oficial de mae e que muitas de voces viu crescer, se mudou e hoje mora com a namorada, mas, devo informar, que em terras europeias, ‘amigado com fe, casado e’ nao conta, mas pelo que parece , estao no caminho.

No trabalho, poucas mudanças. E que sorte a minha: amo o que faço porque faço o que amo. Nem sempre a vida é tão alinhada assim.

Mas, enquanto eu vivia meu ano gentil, o mundo lá fora desmoronava. Crianças, mulheres, homens,  milhares deles atravessavam um 2025 que não deveria ter existido. Guerras injustificáveis, dores sem nome, prisões necessárias, silêncios profundos. Um ano de solidão para tantos; de terapia, de leitura, de percepção.

Para alguns, um ano de sobrevivência. Para mim, paradoxalmente, um ano de preparação.

E foi numa ida banal ao mercado, dessas em que a gente compra pão, café e decide mudar a vida, que me vi de frente com milhares de espadas‑de‑São‑Jorge. Eu, que estava doida para levar uma para casa, comecei a examinar cada uma, procurando a mais perfeita porque a perfeição ainda me seduz, mesmo quando tento fingir que não.

Mas parei. Literalmente. Com a planta na mão.
E pensei: qual é a graça da perfeita? Qual o sentido de tirar algo perfeito de um lugar perfeito?

Foi então que vi uma pequenininha. Meio torta, meio tímida, precisando visivelmente de cuidados. E foi essa que escolhi. Ou talvez tenha sido ela que me escolheu, crônicas são assim, a gente nunca sabe.

Trouxe para casa e, junto com ela, fiz meu único voto para 2026: nutrir o que eu tenho, cuidar do que cresce ao meu redor, permitir que as coisas -e as pessoas -floresçam no seu próprio tempo. Com amor. Principalmente a minha nova plantinha, que já virou metáfora antes mesmo de ser regada.

Que 2026 seja leve, gentil e prospero pra voce.

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