O dia em que eu perdi a minha filha.

Depois de uma semana inteira de inferno astral, com a casa inteira doente, tive uma idéia brilhante:
Ir para a Ikea.

Lá tem um espaço para kids, tem coisa bonita pra olhar, tem restaurante pra comer.
Tudo o que eu preciso para ser feliz em um só lugar.
Do outro lado da cidade, mas em um só lugar.
Então fomos para a Ikea.

Em algum momento, enquanto eu o Rosinha nos distraímos, a Mia, que estava ali do nosso lado, desapareceu, enquanto a Amy permanecia no carrinho alheia ao que estava acontecendo, comecei meu show a gritar, e a andar. Eamon foi para um lado e eu fui para o outro, sem me importar com os olhares das pessoas que passavam, a Ikea é enorme e o meu pulmão também, chamei pela Mia milhares de vezes, gritei por ela e tremia e pensava que nunca mais fosse vê-la, que alguém, estava esperando por um momento de distração nossa para roubar nossa menina e eu continuava a gritar, um atendente se aproximou me informando que já tinham fechado as saídas do estabelecimento e que os caixas já tinham sido informados que uma criança estava perdida, mas tudo parecia surreal, parecei que eu estava ali assistindo um filme passar na minha frente e o final não seria feliz.

Não deve ter se passado mais do que 4 minutos.

O Eamon apareceu com ela no colo e eu desabei em prantos.
Parecia que o mundo inteiro acabava de sair dos meus ombros.
Uma moça com um olhar de piedade, do qual eu nunca vou esquecer, me abraçava e dizia que ia ficar tudo bem, eu que não gosto muito de abraços, recebi aquele com a alma, eu estava precisando desesperadamente de um.

E eu chorei, por muitos minutos.
E tremi por outros tantos.

Voltei a agradecer a Deus pelo susto, eles servem para nos lembrar que as vezes a gente reclama demais e agradeci por ser como eu sou, eu reclamo de menos e continuarei assim.

Ja ouvi indireta de muita gente que diz que eu passo para os outros uma maternidade colorida, sem muitas queixas, mas o que eu posso fazer se ela pra mim é isso?

Como reclamar de uma  virose que passa, de noites mal dormidas, de crianças de mau humor, quando a realidade de outras tantas famílias é tão  desesperadora?
Alguém consegue imaginar o que seria viver com um filho desaparecido?
Pois é, nem eu.

Naqueles 4 minutos, em que eu temia nunca mais ver a minha filha, agradeci por todas as bagunças e risadas e choros e brigas e vida que vivemos juntos.
Agradeci pela luta em alimenta-la, pelas noites difíceis de dentes nascendo, pelas vergonhas passadas e pelas graças alcançadas.

E você devia fazer o mesmo.

Porque se tu teve uma semana difícil, cuidado, sempre dá pra piorar.

Eu, a mais otimista das criaturas vivas, nunca pensei que um dia diria isso, mas ainda bem, que já é fevereiro.

Facebook Comments

10 Comments

  1. Sabe que eu me lembro o dia que perdi minha mãe no centro de São Paulo, dentro de um Mappin, nas vésperas de Natal? E vou dizer que a minha sensação foi essa mesma. De pensar que eu nunca mais fosse ve-la, e de sentir a maior gratidão do mundo (que eu nem sabia na época que era gratidão, rs) quando ela me encontrou.

  2. Mesmo de longe da pra sentir o seu desespero!! Também chorei lendo!! Ainda bem que tudo ficou bem e que essa história não teve um final trágico como tantas outras. Sua família é linda e abençoada!! Acompanho seus posts tem algum tempo já, mas nunca tinha comentado aqui, mas hoje não teve jeito. Emoção demais!! beijos

  3. Nossa, vc eh a terceira mae q conhwco q passou por isso. Eu passei na Penneys do Dundrum. Eh horrivel. Ela tava escondida debaixo dr uma arara.

  4. Graças á Deus está tudo bem com minha xodózinha a Mia. E que tudo não passou de um susto.

    Beijos Ká, Feliz Carnaval.

  5. Um pesadelo pra qualquer mãe, ufa, ainda bem que tudo acabou da melhor maneira. Aqui em casa também pensamos assim, virose não é doença, faz parte rsrs, e fazemos apostas pra saber quem será o próximo, porque quando um pega é efeito dominó. Abraços (ops)
    Renata

  6. Ai Ka, te entendo. Aconteceu duas vezes comigo: uma vez num shopping quando a Julia tinha dois anos e eu achei que ela tivesse sido roubada, juro. Que medo, que desespero. Sofri muito e desabei em prantos quando a encontrei brincando em um desses racks de roupas. Você esta certa, devemos agradecer por ter essas crianças ao nosso lado, eu sinceramente não saberia viver com um filho desaparecido. Beijocas pra vocês.

  7. Afff, que aflição Ka!! Ikea, Ikea, já passei por algo parecido… eu pareço uma daquelas mães super chatas nos lugares públicos hoje em dia, sempre chamando atençào e mantendo Alice perto, justamente para tentar evitar sustos como esse… pena que, mesmo com todo cuidado do mundo, elas conseguem nos escapar mesmo assim… hehe…
    Que bom que vcs acharam ela rapidinho (apesar de 4 minutos parecer uma eternidade nestas horas…).
    Beijos
    Adri

  8. Já passei por isso também, perdi o meu filho quando ele tinha 3 anos, em um porto no Japão. E como a gente só pensa o que não presta, eu achava que ele tinha se jogado dentro do mar e eu estava prestes a fazer o mesmo eu não ia esperar receber a notícia. Ainda bem que em poucos minutos com o pai dele conseguiu acha-lo. Eu te entendo, eu também estive lá e também sou muito agradecida.

  9. Agora imagina que meu proprio marido 'raptou' o meu filho no John Lewis por uns minutos so para mostrar para mim como seria facil um estranho fazer o mesmo? odio

  10. Não gosto nem de imaginar uma situação dessas. Graças a Deus foi só um susto.

    Vi que vc comentou que não gosta de abraços (acabei de tbm sobre sua hiperatividade), eu achei que só eu não gostava de abraço. Eu não tenho paciência nem pra receber carinho, do tipo cafuné coisa básica rrrsss

Leave a Reply