Relação mal resolvida.

O plano a princípio era só dar um tempo, lembra?
Mas aí o vento mudou a direção e vi que você continuava em pé, vivendo a sua vida aí e eu a minha por aqui.
O tempo se transformou em separação definitiva, mas a saudade ainda batia no peito e era bom voltar para os seus braços vez em quando.
E eu contava os minutos para voltar.
E voltava.

Acho que dessa vez foi nosso recorde, ficamos 2 anos e meio sem nos ver e não sei se foi a saudade, mas nos meus pensamentos só conseguia me lembrar do lado bom da nossa relação, pensava na praia, na água de côco, nas reuniões e risadas, nos shows, nas famílias reunidas e foi assim, que sem planejar muito, comprei uma passagem para te reencontrar.
E fui.
Fui de coração aberto, apesar de escutar pelos outros, que você não era mais tão bonito e nem tão legal quanto eu pintava na minha falta.
Fui, cheia de esperanças de te ver renovado, melhorado e na paz.
Principalmente na paz.
Fui, no sapatinho.
Fui para comemorar seu aniversário!
Fui sem muita expectativa. (dizem que assim a desilusão é menor)

Eu sabia que independente de qualquer coisa que encontrasse, já não daria mais para nós dois, eu refiz a minha vida aqui do outro lado do mundo e seria impossível continuar de onde paramos, mas né?
Quem sabe um dia, com as crianças crescidas e encaminhadas eu pudesse voltar atrás?
Mas não.
Não dá mais para nós.
Melhor ficarmos assim, eu daqui, você daí.
Recebo notícias suas e você notícias minhas.
E pelos velhos e bons tempos eu torço por você e você por mim.

Não vou soar clichê e dizer que o problema sou eu, e que você não tem culpa de nada.
Porque você tem.
E eu tenho.
Mas o fato é que eu mudei.
Já não sou mais aquela que foi embora.
Já não acredito mais em promessas desfeitas na próxima manhã depois de mais uma eleição mal sucedida.

Talvez você também não me queira, do mesmo jeito que o taxista do aeroporto me recusou porque eu queria ser cobrada no taxímetro, ou a moça da padaria que por muito pouco desistiu de uma venda de 36,35 porque eu não tinha troco pra facilitar o trabalho dela, mas eu tentei.

Também tentei achar normal pagar menos em uma obturação dentária do que em uma escova no cabelo (e não era definitiva!), tentei achar normal gastar 450 Reais em compras no supermercado para 1 semana, ou ver o índice de assaltos crescendo assustadoramente na região onde meus pais moram e nada estar sendo feito.

Tentei encontrar justificativas para o preço das escolas e creches que as filhas das minhas amigas estudam, dos assaltos que acontecem diariamente nos transportes públicos, na quantidade de horas que uma grávida tem que esperar por um médico particular em uma consulta MARCADA de rotina.
E o trânsito? Acho que carioca devia ter o direito a 30 horas por dia, porque 6 fica perdido no trânsito cada vez mais caótico.

Eu sei também que a culpa não é toda sua.
Continuo sem entender como alguém tem coragem de financiar carro em 12 anos, ou o motivo pelo qual mães andam com babás uniformizadas em shopping centers. E sobre os shopping centers, como pessoas conseguem comprar sapatos e roupas com o salário que ganham?

Sem contar nas mini fortunas gastas em festas infantis e a cara de espanto que faziam (homens e mulheres) quando eu dizia que quem estava em casa cuidando dos meus dois bebês, era meu marido, pai das bebês, ou seja.

Sei que não existe no planeta terra, lugar perfeito.
Ou pessoas perfeitas.
E nem sei se queria esse lugar, ou ser uma dessas pessoas.

Então, que Deus me permita te encontrar muito nessa vida e que eu possa mostrar para os meus filhos de onde eu vim, porque eu sou e tudo o que você tem de maravilhoso.
(vê se não me decepcione!)

Mas acho que de você, só quero mesmo, o lado bom.
Sem compromisso.
Tipo amantes, saca?
Só de férias, só pra curtição, só por 1 semana.
Você ainda não é pra casar, não comigo.
Não mais.

E posso te fazer um pedido, agora como amiga?
Cuida bem de quem ficou.
E não se esqueça de mim, porque apesar dos pesares, não dá pra eu me esquecer do que fomos um dia, não dá para esquecer de você, meu Rio.

***********

Enquanto isso vamos nos amar em outras dimensões?
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23 Comments

  1. Amei! Nao sei se vc fala do Rio, mas qdo estive lá em 2014 vi que minha relaçao com ele tb tinha acabado. Hoje mesmo escrevi um post em que falo disto. Beijo

  2. Lindo lindo texto, e è exatamente como eu me sinto em relaçao ao nosso Rio!

  3. Tao realista e muito ben escrito. Ainda porem o que mais tem me chocado é o que tem a ver com o que o vc citou (baba de uniforme , prestação de carro, choque com homem cuidar de filho): esse lado poser, classista, machista, e que qcada vez mais não teme mostrar o quanto fascista pode ser. É assustador. Beijao

  4. Etâ Errojota das emoções e das dificuldades, pelo menos deu pra aproveitar a água de coco ate o talo, renovar a alma e o espirito nas águas cristalinas cariocas-fluminenses e ainda por cima tirar um agrado de quem mais gosta, porque oque é bonito é para mostrar não é mesmo. Aguenta coração, saudade pouca e bobagem.

  5. Caiu um cisco no meu olho! :'( AKA: Amei o texto!!! xxx

  6. fui lendo esse texto e pensando "tadinho do rosinha" haha, mas pra lá do meio entendi que vc falava do Brasil, ou do Rio mais especificamente.
    xx

  7. o texto é sobre o Rio, mas cai perfeitamente para qualquer capital do nosso Brasil 🙁

  8. lindo texto! parabéns!

  9. Des o início do texto percebi que você estava falando do Rio (ou do Brasil, pois se aplica ao Brasil como um todo), pois é justamente assim que eu me sinto.
    Voltei do Brasil em fevereiro, onde fui pela primeira vez sozinha em 7 anos e voltei muito chateada com algumas coisas. talvez com o marido fosse mais "curtição" mesmo, férias de verdade, e sozinha as pessoas me tratavam como "brasileira" e não como vbisita e pude me sentir mais próxima do que as pessoas vivem, sentem e fazem.
    Não suportei as propagandas da TV que só falavam de crédito, aplicação de celular para crédito já pré-aprovado! Acabou o dinheiro para o carnaval? Não tem problema, faça um crédito agora e pague só depois da Pascoa! As pessoas não sabem quanto custam as coisas, o importante é o valor da prestação, mesmo que paguem 3 vezes o preço inicial, que já é caro! Não sei como as "pessoas normais" vivem, com tudo tão caro para um salário médio.
    Alguém me perguntou quem limpava a minha casa, e ficaram chocados quando respondi que era eu mesma com a ajuda do marido… Primeiro ninguém me imaginava limpando o meu próprio banheiro, ainda mais um homem? E olha que quem disse isso eram pessoas simples, nada de esnobes ou pretenciosas!
    Por enquanto o Brasil para mim só mesmo de passagem, para curtir as férias, não conseguiria me adaptar principalmente à forma de pensar de uma parte predominante da população. 🙁

  10. Adorei! Também sou carioca, há 12 anos fora, você descreveu perfeitamente como me sinto. Ma ( http://www.seguindoahistoria.blogspot.com)

  11. Lindo isso Ká! Parece atpe letra de música. Verdadeiro e profundo. Beijos Jacq

  12. Lindo texto! Me identifiquei por completo !

  13. Tão linda essa declaração às avessas! Acho que todo mundo que mora fora passa por isso. Às vezes passa, às vezes não…
    Bom fim de semana!
    Rosa
    Le Paquet

  14. Lágrimas! Lindo.

  15. Poxa! Fiquei emocionada! Eu sou superfã do seu Blog, Ka! Toda vez que tento comentar dá um erro e nunca completa. Mas, internet à parte, eu me identifico demais com sua história não por eu morar na Irlanda, mas por querer ir do jeito que vc foi, pois sinto uma inquietação muito grande dentro de mim e uma ligação com a Irlanda que transcende essa vida. Por que não fui ainda? Não sei bem, medo, dinheiro, largar tudo… Mas tudo o quê mesmo? Eu sou formada em Direito, advoguei mas acabei parando no serviço público como comissionada. Ou seja, não sou concursa. Não tenho filhos, embora divorciada. Moro longe da minha família numa cidadr onde não me sobrou nada para me agarrar exceto esse emprego. Eu adoro seu jeito de escrever e fico louca com suas histórias. Eu estou pensando em ir em novembro passar apenas 15 dias em Dublin. Mas ainda são planos… Estudo para concurso mas algo dentro de mim ta gritando e tentando me dizer que não é esse meu caminho. Não sei nem se eu escolhi o curso certo… Talvez eu esteja na crise nos 30…sei lá. Mas espero poder estreitarmos os laços. Qqr coisa vou deixar meu email nayarafnegreiros@hotmail.com

  16. Karine, esse arrepiou… senti a mesma coisa pelo Brasil de uma maneira geral quando estive lá em Novembro.
    bjs. Até já! No Porto! 🙂

  17. Ahhhh, Ka! Que texto maravilhoso! Li para o meu marido! Adoramos! Diz ele: "é aquela tua amiga que mandou o presente?" kkkkkk!
    Beijo enorme!

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